Ligando tudo ao todo

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A primeira vez a gente nunca esquece

In Crônicas, Literatura, Política on 12 novembro, 2007 at 10:12 am

Minha mãe me disse que aos três anos, repetida vezes, eu segurava um livro de ponta-cabeça e fingia o estar lendo, enquanto — literalmente — marchava pela casa produzindo estranhos e indecifráveis ruídos com a boca. E isso tudo vestido apenas com uma fralda descartável e com um par de sandalinhas de couro, conhecidas como alpargatas [ ou percatas, como dizia meu pai. Caso não saiba o que são alpargatas, procure no google ].Analisando este fato sob o foco da razão atual, só posso chegar à conclusão de que este ato performático foi minha primeira manifestação político/artística. Um evidente “protesto estético, canarvalesco de esquerda”, repleto de fúria juvenil, em sua simplicidade, ao mesmo tempo tendendo à uma postura anárquica e proto-punk.

O livro ao contrário simbolizava nitidamente minha frustração contra o sistema editorial brasileiro, deixando claro que, já naquela época, as coisas estavam “fora do lugar”.

A marcha desprovida de direção evidenciava minha oposição à ditadura militar instaurada que conduzia o país à lugar algum.

As sandalinhas de couro — herança do lado paterno —, representavam minha aliança de sangue com o norte do país e suas sub-regiões sofridas e esquecidas, tanto por Deus, quanto pelas autoridades governamentais.

A fralda descartável previa, inconscientemente, é claro, a quantidade de “fertilizante orgânico” à qual eu estaria submetido até o pescoço, caso realmente pretendesse escrever profissionalmente.

Já os estranhos e indecifráveis ruídos que eu produzia com a boca, eram apenas estranhos e indecifráveis ruídos que nada significavam, afinal eu tinha apenas três anos de idade e boa parte da capacidade de fala ainda me escapava ao controle.

Por favor, des-comente!

Eu era e não sabia

In Crônicas, Música on 1 novembro, 2007 at 3:42 pm

Foi aos poucos. No começo nem dava para perceber. Haviam sinais, mas eu nem notei. Uma vez um amigo me disse:

— Ei cara, essa tua calça ta rasgada…

E eu, me achando o máximo, disse:

— Cara, eu sei!

Só depois fui perceber que não era um elogio.

E às vezes, eu saía com amigos ou parentes e alguém dizia:

— Como assim, cê vai de tênis?!

Ah, também tinha os comentários sobre o meu cabelo, “sempre arrepiado”, diziam. “Será que não tem pente em casa?”.

Nessa época eu já estava desconfiado, mas foi pelo gosto musical que eu tive certeza. As pessoas paravam de dançar quando eu colocava o meu The Best of RAMONES. E a fase Nirvana, então? Nem gosto de lembrar.

Hoje sou obrigado a reconhecer: eu era punk e não sabia.

Instante Anterior

In Crônicas, Internet, Literatura on 31 outubro, 2007 at 5:34 pm

 É necessário paciência quando se navega para não perder coisas realmente interessantes. Totalmente ao acaso e sem nem ao menos querer fui parar via links no Blog do Bruno dos Los Hermanos, Instante Anterior. Fiquei contente. Destaque para o post das Persianas Solarium.Tão bom e simples que chega a doer.

H. M.