Ligando tudo ao todo

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O mundo é livre

In Arte, Artigo, Código Aberto, Crônica, Creative Commons, Cultura, Direito Autoral, Internet, Literatura, Música, Tecnologia, Variedades on 13 janeiro, 2009 at 8:56 pm
Publicado originalmente por Bruno Dorigatti em 09/04/2008.

O futuro dos negócios e da remuneração de quem produz a cultura – bem imaterial hoje circula livremente pela internet – é… distribuir tudo de graça. Saiba como este conceito se torna cada vez mais a norma, em vez de uma anomalia.

O século XX viu florescer a indústria cultural tal qual a conhecíamos até bem pouco tempo. Em verdade, ela ainda segue ditando os padrões. E usa de seu enorme poder econômico e político para tentar manter o jogo a seu favor. Não tem dado muito certo, como vimos anteriormente [leia Pirata bom, pirata mau e Indústria vs. Cultura livre].

A rápida transformação tecnológica, a que assistimos desde o final do século passado, segue produzindo também mudanças na relação que temos com a cultura – que deixou de abarcar simplesmente produtos culturais materiais. A noção imaterial de cultura, intangível, retorna com força neste início de novo século. Não a toa que a Inglaterra foi o primeiro país do planeta a criar um Ministério de Indústrias Criativas, conceito novo que engloba não somente as atividades culturais.

O desenvolvimento dessas indústrias está estreitamente ligado ao impacto das novas tecnologias na produção, nos mercados e na organização das atividades econômicas, sociais e culturais. Os modos de criação, produção e distribuição de bens e serviços que utilizam o conhecimento, a criatividade e o capital intelectual como seus principais recursos produtivos podem ser consideradas indústrias criativas. Entre elas, a arte folclórica, festivais, livros, pinturas, artes da interpretação, passando pelas tradicionais indústrias cinematográfica e de radiodifusão, animação digital e videogames, bem como os campos conhecidos como serviços, como os arquitetônicos e de publicidade. [Leia mais a respeito na entrevista com Anna Jaguaribe]

Perde cada vez mais sentido pensarmos somente em CDs, DVDs e livros como formas principais de remuneração dos produtores de arte e cultura. Tudo circula livremente pela internet e de agora em diante a remuneração virá, de forma crescente, de outros meios. Já sabemos que em Belém do Pará, por exemplo, o dinheiro dos grupos de tecnobrega vem dos shows e apresentações. Mas aí estamos falando de um mercado novo, até bem pouco tempo marginal, e que foi, em outro passo em falso da indústria, recusado pela mesma.

De forma crescente, os jovens e adolescentes deixam de comprar CDs. A pesquisa foi feita nos Estados Unidos, mas reflete o panorama no planeta inteiro. Em 2007 quase metade da garotada, 48%, não comprou sequer um mísero disquinho. Em 2006 a cifra era de 38%, segundo informa pesquisa da Nielsen – realizada com 5 mil pessoas que responderam a um questionário on-line e divulgada em matéria do Los Angeles Times de fevereiro. As vendas de discos caíram 19% em 2007, enquanto que a venda de música digital subiu 45%.

Na China, a estimativa é de que 99% de todos os arquivos de música que circulam pela rede, ou nas calçadas das grande cidades, são “piratas”. Dado como causa perdida, os artistas chineses têm apostado em outras formas para serem remunerados, como a crescente participação em comerciais de grandes empresas.

Long Tail

Uma idéia desenvolvida por Chris Anderson e publicada em 2004 na Wired, revista editada por ele, sugere um cenário diferente que poderia ser aproveitado pela indústria. Ele a chamou de Cauda Longa (Long Tail). Saiu em livro no exterior, em 2005, e no Brasil foi publicado pela Campus Elsevier em 2006.

Vivemos, até então, a era da escassez. Um disco obscuro de um blueseiro do Delta do Mississipi, lançado nos anos 1930, ou um curta-metragem de Glauber Rocha, até bem pouco tempo atrás eram praticamente impossíveis de serem encontrados. Nas lojas, ainda continuam na mesma situação ou, na pior das hipóteses, se encontra o disco de blues, importado e na faixa dos R$ 70. Glauber Rocha, somente agora começa a ter seus filmes de longa-metragem digitalizados. Os curtas ainda terão que esperar. Por outro lado, a janela que se abre com a internet é a da abundância.

Outra mudança considerável é a respeito dos blockbusters e hits dos astros pops, que, segundo as gravadoras e produtoras de filmes, eram responsáveis por financiar todo o resto da produção que não se pagava. A mesma lógica é utilizada aqui no Brasil por algumas grandes editoras para justificar os altos investimentos em livros de autores estrangeiros, que, best-sellers certos, ajudariam a bancar a publicação de novos autores, que saem com pequena tiragem, mil exemplares, se tanto, e geralmente encalham nos estoques. O Princípio de Pareto, do economista italiano Vilfredo Pareto, desenvolvido em 1906, falava em uma regra de 80/20 (80% das consequências advém de 20% das causas), ou seja, somente 20% dos filmes das grandes produtoras terão sucesso comercial, assim como os programas de TV, os videogames e os best-sellers. No caso da música, é ainda pior, onde apenas 10% alcança sucesso, segundo a RIAA.

A lógica da indústria – de que ela nos dá o que queremos – vem sendo derrubada dia após dia. Queremos hits, mas não só. Quanto mais conhecermos algo (o trabalho de um artista, diretor de cinema, quadrinhista, ou de um fotógrafo, etc.), mais procuraremos e a facilidade que a internet proporciona tem demonstrado que queremos mais, muito mais.

Outro mito que vem caindo é que somente os hits fazem dinheiro. Executivos de sites que vendem música e livros, como o iTunes (venda de música on-line) e a Amazon sabem que não somente os grandes produtos de massa fazem dinheiro. E como estes são em número muito maior, um novo mercado vem se desenhando rapidamente. Até porque os custos de manufatura e distribuição têm caído cada vez mais, chegando a zero muitas vezes, já que agora falamos de serviços digitais. O monopólio do lucro não está mais necessariamente associado à popularidade do produto cultural.

Esta seria a Cauda Longa, onde pequenas e poucas vendas de um catálogo infinito e disponibilizado trariam um retorno maior que os hit makers e quetais. O catálogo inteiro com todos os discos de uma banda, por exemplo, mas não só. Apresentações ao vivo, CDs demo, lados B, remixes, covers, shows ao vivo, gravações do disco no estúdio. E a remuneração vem destas pequenas vendas, de um catálogo muito maior, disponibilizado on-line, quebrando a tirania da necessidade material e física da produção cultural, bem como de um espaço físico necessário para armazenar tudo isso. Isso já ocorre, ainda que numa escala distante do que será em breve. Porém, é um caminho sem volta, e mais uma vez a grande indústria só agora começa a levar o tema a sério. Como afirma o consultor da indústria fonográfica Kevin Laws, citado por Anderson, “o grosso do dinheiro está nas pequenas vendas” (“the biggest money is in the smallest sales”).

Freaky land of free!

Em fevereiro deste ano, Anderson publicou na mesma Wired outro artigo, desdobramento do primeiro e prévia de seu novo livro. “Free! Why $0.00 is the future of business” começa lembrando a história de King Gillette, que, aos 40 anos, era um inventor frustrado e um amargo anticapitalista. No início do século passado, ele desenvolveu as populares lâminas de barbear descartáveis, que levam o seu nome e viraram sinônimo dos aparelhos de barbear. Foi o primeiro a se utilizar do conceito de que, dando os aparelhos de barbear, iria aumentar consideravelmente as vendas de lâminas descartáveis. “Bilhões de lâminas depois, este modelo de negócio é hoje a base para algumas indústrias: dê o telefone celular e venda o plano mensal; faça o console de videogame barato e venda jogos caros; instale uma máquina de café nos escritórios sem custo algum e venda o café”, escreve Anderson. “Graças a King Gillette, a idéia de que você pode fazer dinheiro dando algo não é mais radical. Mas, até recentemente, praticamente tudo ‘grátis’ era na verdade apenas o resultado do que os economistas chamariam de subsídio cruzado: você leva algo de graça se comprou outro, ou você leva um produto se pagou por um serviço.”

Na última década, porém, uma nova forma de “grátis” emergiu, não mais baseado nos subsídios cruzados – o desvio dos custos de um produto para outro – mas no fato de que os próprios custos dos produtos estão caindo rapidamente. Em analogia ao produto fabricado por King Gillette, é como se o preço do aço chegasse tão próximo de zero que ele poderia distribuir ambos, o aparelho de barbear e a lâmina e ganhar dinheiro vendendo outro produto. Creme de barbear, sugere Anderson.

“You know this freaky land of free as the Web”, afirma o jornalista com formação em física. Uma década e meia depois do seu surgimento comercial, a internet vai assistindo aos últimos debates em torno do conteúdo gratuito ou pago distribuído pela rede. Cada vez mais os serviços vão se tornando ou já nascem gratuitos, como o New York Times ou o YouTube, respectivamente. A partir daí, Anderson analisa alguns cenários e teoriza sobre uma taxonomia do grátis: “freemium”, onde produtos como softwares e serviços premium bancam a maioria disponibilizada de graça; anúncios, como os que remuneram por clique (os do Google, por exemplo); custo marginal zero para distribuição, caso da música on-line; trabalhos colaborativos, em sites como Digg e Overmundo, entre muitos outros; uma economia da generosidade, que podemos observar através da Wikipedia, por exemplo, e perceber que o dinheiro não é mais o único motivador, e que atividades individuais na web podem ter impacto global.

Estamos entrando em uma era onde o conceito “de graça” vai ser visto como a norma, e não mais como uma anomalia, pontua Anderson.

Fonte: http://www.portalliteral.com.br/

Livre é diferente de grátis [Republicado]

In Arte, Código Aberto, Comunicados, Crônica, Creative Commons, Cultura, Direito Autoral, DRM, Ebook, Internet, Literatura on 3 novembro, 2008 at 12:06 am

Livre é diferente de grátis

Mais questões por e-mail

O que leva um autor a disponibilizar seu trabalho livremente na internet [ ou em qualquer outro meio ] é a divulgação.

O termo gratuito é relativo, já que há algum custo envolvido na parte de produção, mesmo em se tratando de um arquivo digital, como criação, tempo de produção, manutenção de link e do próprio site ou blog.

O preço de uma obra sempre é simbólico, tendo em vista a impossibilidade de quantificar em um valor monetário o tempo de aprendizado, criação, dedicação, originalidade, etc, despendido na tarefa.

O retorno que o autor espera é moral, isto é, o reconhecimento de seus talentos [ quando eles existem ] críticas que possam contribuir para o seu aperfeiçoamento e credibilidade junto aos leitores, possíveis editores e colegas de ofício.

A forma de retribuição por parte dos leitores, caso tenham apreciado a obra, pode ser exercida no auxilio à divulgação, indicando a obra e o autor à amigos e à trabalhos relacionados.

Todos sabem a importância da campanha “boca a boca” no campo das artes e do entretenimento, principalmente na internet. No cyberespaço o mesmo ocorre, link a link. E as redes sociais fazem com que o alcance dessas recomendações se torne, praticamente, ilimitado.

Então, caso você tenha gostado de uma obra livremente disponibilizada, retribua contribuindo com divulgação.

Em muitos blogs e sites, existe a venda de e-books e de serviços relacionados. Muitas vezes regulados por sistemas DRM. Downloads pagos, editoração, confecção de capa, etc.

Nada contra. Mas não podemos esquecer que os sistemas de DRM são, por natureza, contrários ao principio básico da internet: “transportar bits de forma rápida e barata.”

Acredito, portanto, que não será se utilizando de velhas fórmulas que encontraremos uma maneira justa de remunerar os autores por seus trabalhos disponibilizados livremente.

Do you wanna touch?

In Crônica on 30 outubro, 2008 at 7:41 am

– Bom dia, estava olhando o catálogo de vocês e gostei desse modelo de computador. Quais as especificações técnicas?

– Hum… interessante, qual o preço?

– O quê??????? Quanto??????

– Como assim??? Tão caro!!! Por que tudo isso?

– Touch o quê???

– Moça, eu tenho horror a marca de dedo na tela do computador, porque diabos eu vou querer tocar na tela???

– Não, aparentemente você não entende, é mais forte do que eu, marca de dedo na tela estraga o meu dia, estraga até o trabalho…

– Humm… tá, mas por esse preço é bom que não fique marca de dedo na tela!

H. M.

A primeira vez a gente nunca esquece [ republicado ]

In Crônica on 30 janeiro, 2008 at 8:55 am
Minha mãe me disse que aos três anos, repetida vezes, eu segurava um livro de ponta-cabeça e fingia o estar lendo, enquanto — literalmente — marchava pela casa produzindo estranhos e indecifráveis ruídos com a boca. E isso tudo vestido apenas com uma fralda descartável e com um par de sandalinhas de couro, conhecidas como alpargatas [ ou percatas, como dizia meu pai. Caso não saiba o que são alpargatas, procure no google ].

Analisando este fato sob o foco da razão atual, só posso chegar à conclusão de que este ato performático foi minha primeira manifestação político/artística. Um evidente “protesto estético, canarvalesco de esquerda”, repleto de fúria juvenil, em sua simplicidade, ao mesmo tempo tendendo à uma postura anárquica e proto-punk.

O livro ao contrário simbolizava nitidamente minha frustração contra o sistema editorial brasileiro, deixando claro que, já naquela época, as coisas estavam “fora do lugar”.

A marcha desprovida de direção evidenciava minha oposição à ditadura militar instaurada que conduzia o país à lugar algum.

As sandalinhas de couro — herança do lado paterno —, representavam minha aliança de sangue com o norte do país e suas sub-regiões sofridas e esquecidas, tanto por Deus, quanto pelas autoridades governamentais.

A fralda descartável previa, inconscientemente, é claro, a quantidade de “fertilizante orgânico” à qual eu estaria submetido até o pescoço, caso realmente pretendesse escrever profissionalmente.

Já os estranhos e indecifráveis ruídos que eu produzia com a boca, eram apenas estranhos e indecifráveis ruídos que nada significavam, afinal eu tinha apenas três anos de idade e boa parte da capacidade de fala ainda me escapava ao controle.

Não vou me adaptar – Cronicando

In Crônica on 29 janeiro, 2008 at 4:17 am
Simplesmente não…

“quando me olhei no espelho achei tão estranho, a minha barba estava desse tamanho…” e continuo lembrando do que devia esquecer e esqueço do que devia lembrar, mas com outras metas e mais claras desta vez, mas no fundo não importa. Sabemos disso, nós dois, não é?

Próximo round, então!

Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia
Eu não encho mais a casa de alegria

Os anos se passaram enquanto eu dormia
E quem eu queria bem me esquecia…

Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar me adaptar…

Eu não tenho mais a cara que eu tinha
No espelho essa cara não é minha

Mas é que quando eu me toquei
Achei tão estranho a minha barba estava desse tamanho…

Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar me adaptar…

Não vou!
Me adaptar! Me adaptar!

Titãs

Internet: O Arquivo ( ou pirataria é crime, não ataque os navios )

In Código Aberto, Cinema, Crônica, Creative Commons, Cultura, Direito Autoral, DRM, Internet, Literatura, Música, Variedades on 15 janeiro, 2008 at 8:00 am
Imagine um lugar onde vários filmes, livros e músicas estão arquivados.

Você pode acessar esse lugar e ler online, assistir, ouvir ou baixar para o seu computador ou celular. Isso mesmo, livros, músicas, filmes e textos.

E tudo isso sem ser considerado um pirata, um criminoso. Pois pode parar de imaginar, esse lugar existe.

Bom demais pra ser verdade? Mais ou menos…

Ainda não é o sétimo céu, mas quem sabe um dia.

No internet archive http://www.archive.org/ você encontra vários filmes, músicas, imagens e textos que já não estão mais sob proteção das leis de direitos autorais, são produções artísticas e intelectuais livres de copyrgth. São produções culturais que se tornaram públicas.

Toda propriedade intelectual, artística, cultura, tem um prazo limite de proteção e quando este expira, a obra torna-se pública. Por isso, no site você encontrará coisas velhas, mas ainda assim é uma boa notícia.

Isso nos dá, de certa forma, uma visão de como poderá ser a concretização do que foi prometido e alardeado com o início da internet: acesso irrestrito à cultura.

Os velhos clássicos do cinema estão lá. Sem senhas, sem propagandas, sem registros, sem cadastro, sem DRM, basta acessar.

Ontem mesmo assisti Dementia 13 de Francis Ford Coppola que eu nem me lembrava mais. Stephen king considerou esse um dos filmes mais assustadores de todos os tempos.

Já estou me programando, um filmão por noite. Hoje The Last Man on Earth, a primeira adaptação de Eu Sou a Lenda de Richard Masterson, e amanhã vai ser Attack of the 50 Foot Woman e depois, só Deus sabe!

O Grande Arquivo existe, e eu digo obrigado.

Link: http://www.archive.org/

P.S.: li essa na internet em algum lugar: “Pirataria é crime, não ataque os navios“, acho que vou fazer uma camiseta.

Cansei de ser Sério – Parte I – O Movimento

In Crônica on 10 janeiro, 2008 at 12:32 pm
Já que o modus operandi de sucesso parece ser o “hoje vou falar mal de quem?” entre jornalistas e escritores, estou lançando o movimento Cansei de Ser Sério.

E hoje vou falar mal de quem?

Escritores independentes.

Você por acaso já reparou como os escritores independentes são tão… independentes?

A coisa já começa pela capa do livro, um fundo branco, na maioria das vezes, representando obviamente o vazio existencial de nossa cultura etc e blá, blá, blá.

Ainda na capa, talvez possa ser visto uma máquina de escrever antiga, ou parte dela, num corte visceral representando uma ruptura de estilos etc e blá, blá, blá.

Ou talvez um velho óculos esquecido sobre uma escrivaninha com uma das pernas semi-dobrada, representando a falta de visão na humanidade em relação ao etc, blá, blá, blá.

É claro que não podemos esquecer dos que abusam de closes confusos, cenas abstratas que focam o caos da sociedade moderna em relação ao blá, blá, blá.

Os títulos, então, são tão independestes e descolados que nem precisariam do resto do livro. Estes parecem existir por si mesmos. Algo como: “a morte que mata”. Com um título desses nem precisa ler a história, está tudo ali!

Os que contém frases longas são os que mais me divertem. Algo como: “eu ainda sei e sempre saberei o que vocês fizeram na sexta-feira santa do ano retrasado”. Não é lindo?

Outro exemplo clássico são fusões desconexas que pressupõem complexidade. Algo do tipo: “A fúria dos Fracos”, ou “manhã escura e clara”, ou ainda ” o que meu analista faria?”.

Dentre todos, no entanto, há um lugar especial em nossos corações e mentes para aqueles que usam e abusam do proibido, do obsceno. Nada mais sexy, nada mais… independente.

E o mais legal é que isso parece funcionar. Digo parece, porque se você gritar bem alto “vai tomar no cú!” bem no meio de uma missa, é óbvio que todos vão olhar pra você. Mas depois de avaliado o conteúdo intelectual da frase, você não passará do “aparecido” que gritou “vai tomar no cú!” bem no meio da missa. E quer algo mais independente do que isso?

Se você também Cansou de Ser Sério, comente!

Natal é pra quem pode, uma crônica triste de natal

In Crônica on 21 dezembro, 2007 at 2:49 pm
Todos que me conhecem um pouco [ de verdade ] sabem que pra mim natal é uma época triste. São coisas que acontecem e que você tem que aguentar seguindo adiante, independente do que acontece à sua volta.

Esse texto é só porque é difícil olhar pra trás e deixar pra lá. No dia específico não consegui abordar o assunto, mas precisava escrever sobre isso como forma, talvez, de exorcismo. Talvez pra dizer que ainda me lembro e que algumas coisas precisam e devem ser lembradas. Mesmo quando doem.

Esse texto é só porque é muito triste ver aquelas famílias felizes nos comerciais de celular e pensar que aquilo poderia estar acontecendo com você. Sabe? Ceia à meia-noite, amigo secreto, você tirou o vovô, o vovô tirou a tia chata, aquele seu tio bebe demais, todo mundo ri, chora, essas coisas.

Participei como convidado em alguns desses encontros, mas é muito estranho ver tudo de fora. É divertido ver, estar, querer fazer parte, mas a verdade te desmonta, porque você sabe que não tem lugar fixo ali.

Deve ser bom. Bem, feliz natal pra eles então.

Sei que parece exagero, mas só entende quem já passou por isso. Algumas pessoas pensam que entendem, mas não é verdade. É como sexo, não adiante te contarem, você só vai saber como é quando passar por isso. Fatos da vida. É uma merda, eu sei.

Acho que chega de auto piedade por hoje. Escrevi, apenas porque precisava, assim como acontece com tudo que escrevo.

Não leia esse post

In Crônica on 16 dezembro, 2007 at 12:25 pm

Ontem do nada, e por nada, revi “Melhor é Impossível” com Jack Nicholson e Helen Hunt.

E…

A vida é isso?

Vou tentar resumir o que é viver [ às vezes ]

Às vezes viver é tentar fazer o melhor que se pode em cada situação pra depois descobrir que você não estava entendo direito, que não era bem isso, que você não fez o melhor e estava muito, muito longe disso e que você reagiu fazendo e dizendo coisas que lhe fazem se sentir mal por dentro, como se tivesse um buraco dentro de você, uma mancha escura que nunca mais vai sair.

Às vezes viver é escolher entre coisas e pessoas. Quando você escolhe coisas, você descobre amargamente que deveria ter escolhido pessoas; e quando você escolhe pessoas elas te decepcionam, assim como você as decepciona e você descobre amargamente que deveria ter escolhido coisas. Aparentemente “Deus está do lado de quem vai vencer” e você sempre faz as escolhas erradas.

Às vezes viver é trancar os dentes e engolir tudo que você fez de errado porque tudo acontece ao mesmo tempo e não importa se você tenha seguido um caminho e encontrado um muro no final, porque ainda não é o fim, e existem centenas de milhares de muros te esperando.

Às vezes viver é sem graça e você não tem saco pro mundo, pros outros ou pra você mesmo.

Às vezes viver parece não ser o bastante.

Às vezes viver é hesitar por não saber o que fazer, mas como dizem: hesitar é dar tempo ao diabo.

Às vezes viver é dividir a existência com pessoas que fazem você se sentir mal por você ser como você é, por você fazer o que faz, mesmo que você não consiga ser/fazer de outra forma. Mesmo que você queira tentar

Às vezes viver é aceitar que às vezes tentar não adianta.

Às vezes viver é perceber que a vida não é um filme ou seriado de TV e que se for, na última temporada você morre.

Às vezes viver é compreender que um dia mais, na verdade é um dia menos.

Lembre-se que eu disse: “às vezes”.

Tenho que parar de ver filme de “meninas”.

O Pequeno Teatro dos Horrores: A Formiguinha e a neve

In Crônica, Literatura on 13 dezembro, 2007 at 10:02 am
“Oh Deus… Tu que és tão forte, que governa a morte, que mata o homem, que bate no cão, que persegue o gato, que come o rato, que rói o muro, que tapa o sol, que derrete a neve… desprende o meu pezinho”

João de barros

Acredito que na literatura este fora meu primeiro contato com a morte. Eu a vi de perto bem cedo, alguns anos depois. E às vezes acho que ainda hoje não consegui me recuperar daquela conversa.

Tive que aceitar seus argumentos em um momento em que não tinha maturidade suficiente para contra-argumentar.

Acho que tenho revivido esse diálogo constantemente em meus livros. Espero não ser julgado pelo que não sei, muito menos pelo que não fui capaz de absorver. Tenho tentado bastante, mas pelo menos levo a convicção de que tenho feito o que posso.

Sei que vou encontrá-la novamente um dia, espero que da próxima vez a conversa seja, ao menos, mais agradável.

Crônica: you can’t always get what you want

In Crônica on 9 dezembro, 2007 at 12:47 pm
Durante muito tempo pensei que escrever uma crônica era falar sobre si mesmo. E isso definitivamente nunca me atraiu.

Depois, não com tanta humildade quanto devia, aprendi que ao escrever uma crônica eu poderia falar sobre os outros e sobre o mundo.

Então, sem mais nem menos, você se depara com uma frase tão simples e ao mesmo tempo genial que faz com que você saiba que nada, nada do que você possa escrever irá superá-la.

O que falar sobre o mundo, sobre os outros ou sobre mim que esta frase já não tenha resumido, pontuado e expandido?

“No, you can’t always get what you want, you can’t always get what you want, but if you try sometimes you might find, you get what you need”

Rolling Stones

Caso você consiga, por favor, deixe-me ler.

Por que diabos? Exu!

In Crônica on 7 dezembro, 2007 at 5:28 pm

Na última quarta-feira em duas horas de conversa com uma pessoa muito, muito, muito especial, surgiu a pergunta: “você quer realmente ajudar alguém escrevendo? E como você vai fazer?”

Passei os últimos dois dias pensando sobre isso e nas palavras de Max Ehrmann, acho que encontrei a resposta, mesmo escrevendo terror, suspense ou pulp fiction.

“Se em um momento de rara felicidade, eu conseguisse escrever algumas poucas palavras de qualidade que pudessem suavizar os árduos caminhos da vida e trouxessem à agitação dos nossos dias um pouco de coragem, dignidade e equilíbrio, eu ficaria muito feliz”

Max Ehrmann

Agora basta trabalhar a questão de “algumas poucas palavras de qualidade” :)

À primeira vista

In Crônica, Literatura on 7 dezembro, 2007 at 1:29 pm
Existe uma teoria a respeito de livros que, apesar de teoria, é inquestionável.

Tome o exemplo:

Você ouviu falar de um livro, você sabe que todos estão dizendo que esse determinado livro é bom, e o autor é serio, pelo menos aparenta sê-lo, mesmo assim, quando você começa a folhear as primeiras páginas desta obra você imediatamente sabe que não vai lê-lo. Você, às vezes, até compra o livro, ou aceita levá-lo emprestado, para não ofender um amigo, mas você sabe que não vai lê-lo de maneira alguma.

Outro:

Você nunca ouviu falar de um determinado livro, você desconhece sua procedência, tanto quanto a do autor, mas o que acontece? Às vezes, ao ler as primeira páginas, você sabe que vai ler esse monte de árvores mortas coladas à uma capa e sabe que será de cabo à rabo!

Aparentemente não existe explicação para isso. Trata-se de uma fato comum, rotineiro e simplesmente inexplicável.

Caso alguém tenha alguma teoria que explique a simetria destes eventos citados, por favor, compartilhe os arquivos de sua sabedoria comigo. Afinal, compartilhar pensamentos [ mesmo pela internet ] ainda não é crime.

Aproveito para deixar um link para uma artigo de Umberto Eco sobre “os livros que não lemos“.

Carpe Diem uma ova, não aproveite o dia, vamos acabar com esta sociedade de virgens suicidas

In Artigo, Crônica, Variedades on 5 dezembro, 2007 at 7:20 am
É engraçado como certas coisas são encaradas com ingenuidade e pureza e que, mesmo não havendo má intenção, são na verdade nocivas quando fora do contexto.

A expressão carpe diem, por exemplo “colha o dia” ou “aproveite o dia” como se popularizou por aí, na verdade não é tão pura quanto parece.

A expressão surgiu na fase final e decadente do Império Romano onde o clima de fim do Império e fim do mundo como a sociedade romana o conhecia era o estado que realmente “imperava”. A expressão está mais para: “nada importa, tudo vai pro espaço, relaxe e goze”, do que para: ” viva plenamente”.

E não podemos esquecer que na sociedade romana só os homens e, homens livres, é que podiam realmente relaxar e gozar.

Existe ainda a questão ética, tanto de responsabilidade social quanto ambiental. Fica fácil entender porque todos só querem aproveitar o dia, afinal o que os profetas do Apocalipse estão nos dizendo? Eles dizem não haverá água potável, não haverá isso ou aquilo etc…

Agora pergunto: se todos estão por aí aproveitando o dia, quem, quem vai evitar que o pior aconteça? Se no mundo das “mauricinhas e dos patricinhos” onde todos os menininhos e menininhas criados à leite moça, confundem desejos com direitos, isto é, “se eu quero, eu tenho direito e papai tem que me dar se não ele não me ama”, quem vai salvar essa joça?

Por isso uma sociedade de virgens suicidas. Por isso uma nova geração de menininhas e menininhos que só quer relaxar e gozar, uma geração que não acredita no futuro e bebe todo o presente até passar mal, ou até que a água bata na bunda, porque aí, meu amigo, ninguém é mais ateu.

Ao assistir recentemente a uma palestra com o filósofo paranaense Mário Sérgio Cortella, uma frase citada me chamou a atenção: “o mundo que daremos aos nosso filhos depende dos filhos que daremos ao nosso mundo”.

Ao ouvi-la, o que pensei foi: estamos ferrados!

Sendo assim, então, aproveite o dia, porque afinal é tudo culpa dos nossos pais. Tudo está tranquilo enquanto “eu ainda sou o filho e hoje canto essa canção”, mas… “o que cantarei depois?”.

De repente você está com quarenta e não é mais o filho, ou pior, de repente você está com treze anos e e já não é mais o filho. E o que cantará depois?

Eu não quero apenas aproveitar o dia, eu sempre quis salvar o mundo, mesmo que, na maioria das vezes acabava por enfiar os pés pelas mãos. Passei a fase de ser herói, de querer ser bombeiro ou policial, pra salvar o bom e punir o mau, mas mesmo hoje acho que arriscaria minha vida pra salvar um estranho.

Quando li Daniel Quinn, pirei. Queria ter respondido àquele anuncio e ter sido aluno de Ismael.

Eu quero salvar o mundo, mesmo não sabendo como, mesmo não sabendo ao certo o que fazer.

Já faz um bom tempo, fui convidado por um professor amigo meu a falar sobre um de meus livros para um grupo de alunos e um deles me perguntou: “que mensagem você queria passar com o livro?”. Nunca havia pensado sobre isso, até então. E acho que o que respondi foi: “não quis passar mensagem alguma, quis apenas contar uma história legal, espero ter conseguido”, ou algo assim. Mas não é verdade. Hoje sei que não.

Em todas as minhas histórias há o herói que eu não fui. Acho que foi Stephen King quem disse ( ou pelo menos citou em A Hora do Vampiro [ pobre Ben Mears e pobre Mark Petrie ] ) que um livro é uma confissão de tudo o que o autor não fez. Em minhas histórias está presente o herói que eu não fui, por acaso ou incompetência, eu não sei. Mas essa é a mensagem.

Meu personagem principal morreria por você sem pensar duas vezes. Ele não espera agradecimentos, ele não sabe se vai ficar com mocinha no final ( e talvez não fique, provavelmente não, afinal tudo é nada no pequeno teatro dos horrores ), ele apenas faz o julga certo e aguenta as consequências.

Sempre quis escrever profissionalmente desde criança, não sei se sou bom o bastante, mas acho que é o que sei fazer de melhor. Recebi um e-mail de uma pessoa que me disse: “puxa, li seu livro na hora certa, era exatamente o que eu estava precisando, muito obrigado”, mas era uma história de terror e, quer saber? Descobri que isso não importa. Descobri que essa pessoa encontrou o que precisa na história que escrevi, não sei como, nem onde, mas desconfio que sei em quem. No herói, ou melhor, no sacrifício do herói.

Talvez não precise muito para fazer algo pelo próximo afinal. Talvez você precise apenas continuar acreditando que o que você faz é importante a despeito do que as outras pessoas digam.

Talvez seja isso que posso fazer para salvar o mundo? Não sei. Posso estar errado e, ultimamente, na maioria das vezes parece que estou, mas acho que sei contar um história bacana, e agora sei qual a mensagem que tenho passado, mesmo inconscientemente. A mensagem do sacrifício do herói, e descobri que ela funciona pra mim, pois ainda quero ser melhor do que sou, ainda tento prezar pelo bom senso, ainda quero ser herói e com certeza não quero apenas aproveitar o dia.

Portanto, Carpe Diem uma ova, não aproveite o dia, vamos acabar com esta sociedade de virgens suicidas.

Já que dizem que a vida começa aos quarenta, então prepare um parto bem bonito, descubra o que você faz de melhor e comece a fazer. E não duvide, por mais difícil que possa ser, não desanime, por mais que os outros não entendam ( e a maioria não vai entender, acredite ), se você vier a cair ( e você vai cair, por mais vezes que pareça suportável ) levante e volte à prancheta. Tenha paciência, tenha disciplina, só você sabe o quanto pesa o seu sonho. Seja louco e ingênuo o quanto for necessário e por favor, pare de aproveitar o dia, pois ainda é tempo.

Cronicando: Quinze anos

In Crônica, Música on 4 dezembro, 2007 at 6:00 pm

Quando me sinto assim volto a ter quinze anos, começando tudo de novo, vou me apanhar sorrindo… seu amor hoje me alimentará amanhã. Eis o homem que se apanha chorando.

Vivendo e não aprendendo, eis o homem, este sou eu.
Que se diz seguro, que se diz maduro. Seu amor hoje me alimentará amanhã. Eis o homem que se apanha chorando.

Vivendo e não aprendendo, eis homem, este sou eu, que se diz seguro, que se diz maduro. Seu amor hoje me alimentará amanhã, eis o homem…que se apanha chorando.

* é letra de música mas leia como crônica.

Fora de Contexto

In Crônica on 4 dezembro, 2007 at 5:59 am
Eu não sou moralista, pelo menos não o quero sê-lo, mas será que é pedir demais que as coisas sejam como deveriam?

E se as duplas caipiras, por exemplo, ( e os filhos de duplas caipiras ) se vestissem e se portassem como o que realmente são, isto é, duplas caipiras e não estrelas de cinema; e se as estrelas de cinema se portassem como… estrelas de cinemas…

E os médicos se portassem como médicos e vestissem o branco da medicina e não o branco da farmacologia; e os padres vestissem preto e deixassem as crianças em paz;

E se os professores nos ensinassem que é importante lutarmos por nossos direitos e ensinassem isso através de exemplos, fazendo uma greve de verdade ( seu bando de bunda-moles );

E que amigos se portassem como amigos e não nos tratassem como coadjuvantes; e que as pessoas se portassem como pessoas e não como sete bilhões de personagens principais;

E que os advogados fossem inteligentes ao invés de espertos; e que cargos de confiança fossem de nossa inteira confiança; e dos políticos não quero nem falar…

E que homens agissem com bom senso e que as mulheres, pelo menos se portassem como damas…

E que pais amassem seus filhos, já que o contrário é inadmissível; e que um pai se portasse como um pai, assim como uma mãe se portasse como uma mãe e que voltassem para casa, independente de suas vontades ou da vontade de Deus; e que Deus, pelo menos, punisse os maus e recompensasse os bons, afinal é o mínimo que se espera de um Deus;

E que uma pessoa não se tornasse uma lembrança chata, como um mosquito em uma noite de novembro, apenas lembrando que o verão está chegando. E que mesmo que venha a se tornar, por talvez, inevitável, que isso não fosse mencionado, pois seria indelicado, no mínimo….

será que às vezes é pedir demais que se faça o mínimo?

Tudo está errado se está fora do contexto.

Perdoem-nos

In Crônica, Variedades on 3 dezembro, 2007 at 1:22 pm
Oito de dezembro está perto novamente. Todos os anos, neste dia, muitas pessoas me procuram, de todas as partes do mundo, porque se lembram do meu marido, John Lennon, e da sua mensagem de paz.

Obrigada pelo amor eterno a John e também por sua atenção comigo neste trágico aniversário. Este ano, porém, no 8 de dezembro, eu gostaria também de lembrar das milhões de pessoas que estão sofrendo pelo mundo.

Às pessoas que também perderam seus entes queridos sem motivo: nos perdoem por termos sido incapazes de impedir a tragédia. Nós rezamos para as feridas cicatrizarem.

Aos soldados de todos os países e de todos os tempos, mutilados ou que perderam suas vidas: nos perdoem por nossos maus julgamentos e pelo que aconteceu como resultado deles.

Aos civis que foram mutilados, ou mortos, ou que perderam membros da sua família: nos perdoem por termos sido incapazes de impedir que isso acontecesse.

Às pessoas que foram abusadas e torturadas: nos perdoem por termos permitido que isso acontecesse. Saibam que sua perda é nossa perda. Saibam que o abuso físico e mental que vocês passaram terão um efeito duradouro na nossa sociedade e no nosso mundo. Saibam que o ônus é nosso.

Como a viúva de alguém que foi assassinado por um ato de violência, eu não sei se estou pronta para perdoar aquele que puxou o gatilho. Estou certa de que todas as vítimas de crimes violentos se sentem como eu. Mas a cura é o que mais precisamos agora no mundo.

Vamos curar juntos as feridas do mundo. Todo ano, vamos fazer do 8 de dezembro o dia de pedir perdão para aqueles que sofreram o inimaginável. Vamos desejar fortemente que um dia sejamos capazes de dizer que nós nos curamos, e que, nos curando, teremos curado o mundo.

Com muito amor,

Yoko Ono Lennon
Nova York, 29 de novembro de 2006.

Pequeno Teatro dos Horrores: A bola da vez

In Crônica on 29 novembro, 2007 at 10:21 am

Cena: garoto sentado no banco.

( homem entra em cena )

Homem diz: ei garoto, você está fora. Pega suas coisas e vai pra casa.

Garoto diz: eu? Porquê?

Homem diz: a bola passou e você não pegou. Agora vai!

Garoto diz: eu não sabia que era a minha vez, eu…

Homem diz: não interessa se você não sabia, não interessa se você não estava preparado e não interessa se você teve medo. Acontece. A bola passou e você não pegou. Melhor sorte se houver uma próxima vez, agora cai fora!

( garoto sai agitando os braços )

Garoto diz: vida de merda!

FIM

Cronicando "Do Sétimo Andar "

In Crônica, Música on 26 novembro, 2007 at 10:07 pm

É letra de música, mas leia como crônica pra ver se não funciona:

“Fiz aquele anúncio e ninguém viu, pus em quase todo lugar a foto mais bonita que eu fiz, você olhando pra mim.

Alto aqui do sétimo andar longe, eu via você e a luz desperdiçada de manhã num copo de café.

Deus sabe o que quis foi te proteger do perigo maior que é você.

E eu sei que parece o que não se diz:

– O seu caso é o tempo passar – Quem fala é o doutor.

Parece que foi ontem, eu fiz aquele chá de habu pra te curar da tosse do chulé, pra te botar de pé.

E foi difícil ter que te levar àquele lugar. Como é que hoje se diz? Você não quis ficar.

Os poucos que viram você aqui me disseram que mal você não faz. E se eu numa esquina qualquer te vir, será que voce vai fugir?

Se você for, eu vou correr!

Se for eu vou.”

[ Rodrigo Amarante ]

Funciona, não é?

A primeira vez a gente nunca esquece

In Crônica, Literatura on 12 novembro, 2007 at 10:12 am
Minha mãe me disse que aos três anos, repetida vezes, eu segurava um livro de ponta-cabeça e fingia o estar lendo, enquanto — literalmente — marchava pela casa produzindo estranhos e indecifráveis ruídos com a boca. E isso tudo vestido apenas com uma fralda descartável e com um par de sandalinhas de couro, conhecidas como alpargatas [ ou percatas, como dizia meu pai. Caso não saiba o que são alpargatas, procure no google ].

Analisando este fato sob o foco da razão atual, só posso chegar à conclusão de que este ato performático foi minha primeira manifestação político/artística. Um evidente “protesto estético, canarvalesco de esquerda”, repleto de fúria juvenil, em sua simplicidade, ao mesmo tempo tendendo à uma postura anárquica e proto-punk.

O livro ao contrário simbolizava nitidamente minha frustração contra o sistema editorial brasileiro, deixando claro que, já naquela época, as coisas estavam “fora do lugar”.

A marcha desprovida de direção evidenciava minha oposição à ditadura militar instaurada que conduzia o país à lugar algum.

As sandalinhas de couro — herança do lado paterno —, representavam minha aliança de sangue com o norte do país e suas sub-regiões sofridas e esquecidas, tanto por Deus, quanto pelas autoridades governamentais.

A fralda descartável previa, inconscientemente, é claro, a quantidade de “fertilizante orgânico” à qual eu estaria submetido até o pescoço, caso realmente pretendesse escrever profissionalmente.

Já os estranhos e indecifráveis ruídos que eu produzia com a boca, eram apenas estranhos e indecifráveis ruídos que nada significavam, afinal eu tinha apenas três anos de idade e boa parte da capacidade de fala ainda me escapava ao controle.

Por favor, des-comente!