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A Balada da Menina Morta – um conto para as festas de fim de ano

In Conto on 21 dezembro, 2007 at 12:52 pm
A Balada da Menina Morta

“Nem o passado existe nem o futuro. Tudo é presente.”
Gonzalo Torrente Ballester

Ela não acreditava que via o futuro, até que a taça se quebrou no brinde de ano novo e a mancha vermelha se espalhou no vestido branco seguindo o mesmo traço que havia se desenhado no sonho. O tecido colou ao corpo revelando os contorno da peça íntima que também sorvia o líquido vermelho sangue.

Vinho gelado nas pernas, mas fogo queimava na cabeça.

A primeira coisa que pensou foi: “merda”, a segunda foi algo um pouco difícil de se pôr em palavras, um ruído de boca aberta que as pessoas fazem (ou devem fazer) quando descobrem que podem ver o futuro em sonhos e que no último sonho haviam visto a própria morte.

O interlocutor a observava espantado, julgando que a preocupação estava apenas no vestido manchado.

“Sinto muito, eu… você se machucou?”.

Foi então que o primeiro pensamento se tornou verbo:

“Merda” disse ainda de olhos vidrados. “Puta merda!”.

Deixou os restos de cacos caírem e correu para o carro. No sonho estava deitada no salão com a mancha de vinho no vestido e estava morta. Mas havia algo mais. Ninguém morre por sujar um vestido. Estava em choque estava… ficando louca? Precisava sair dali, precisava… desesperadamente… mudar o futuro. Como se não bastasse vê-lo.

Atrapalhou-se com as chaves e o alarme disparou fuzilando seus ouvidos.

“Abre porra!” berrou para o estacionamento vazio. “Abre!”.

O sonho era a resposta, o sonho havia revelado o futuro, só nele poderia encontrar a peça que alteraria tudo. Os olhos estavam cheios d’água, a vista embaçada. Parecia ver vermelho, ver vinho em todo lugar. Suava muito e tudo parecia grudento.

“Esqueça isso, burra, concentre-se no sonho!”.

Havia algo mais, tem que haver! Ninguém vê o futuro por nada, precisava se concentrar. A única razão possível para se ver o futuro era a de poder alterá-lo. Não é?

“É” havia uma música!

“Sim, Música!”.

Era uma balada, não lembrava a letra, não lembrava a merda da letra. Como era enervante. Sabia que era importante mas tinha na cabeça só a maldita melodia.

“Na-na-na-na-nã” cantarolou sabendo que era importante, mas a letra não vinha. Era uma música antiga que falava de…? De… sangue!

“É!” gritou enquanto esfregava o rosto. Tudo grudento, tudo…

“Esqueça Isso !”.

Deu a partida e seguiu para a rua. Ao endireitar na pista respirou profundamente e diminuiu a velocidade. Não queria sair do fogo e cair na frigideira. Nada de acidentes essa noite, por favor. Parou no sinal vermelho sentindo-se muito, muito cansada. O tecido se colava no corpo, tudo grudento no meio das pernas, tudo…

“Na-na-na-na-nã”. Novamente e nada.

E se não puder mudar o que está pra acontecer? E se o sonho ou visão ou seja lá o que for, não significar absolutamente nada. Um erro cósmico, uma falha de merda! Tão cansada, tão difícil pensar tão… não havia bebido tanto, no entanto o mundo estava se apagando aos poucos como se a energia estivesse… sumindo?

“Fluindo” disse com a boca mole. “Fluindo”.

“Na-na-na-na-nã… na-na-na-na-nã”.

Segundos antes de perder a consciência percebeu duas coisas. Tudo na câmera lenta dos sonhos. A primeira foi o grosso filete de sangue que escorria do pulso aberto por um pedaço da taça de cristal. O líquido pastoso fluía até o cotovelo onde gotas gordas pingavam. A segunda e mais assustadora: que iria se esvair em sangue antes que alguém pudesse encontrá-la.


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Scroogled "O Google do Mal " por Cory Doctorow

In Conto, Creative Commons, Internet, Literatura on 17 dezembro, 2007 at 9:27 pm

Scroogled

E se um dia, a companhia que todos nós gostamos e usamos diariamente, deixasse de ser “boazinha”? Como seria a vida num mundo em que o Google fosse usado da pior forma?

É esta a premissa deste Conto de Ficção, escrito por Cory Doctorow que Carlos Martins traduziu e adaptou para o português ( Portugal ) com a autorização do autor.

Disponível para download em formato .txt

Scroogled
de Cory Doctorow
Tradução/adaptação para Português: Carlos Martins

“Dêem-me seis linhas escritas pelo mais honrado dos Homens, e encontrarei nelas uma desculpa para o enforcar.” — Cardeal Richelieu

“Não sabemos o suficiente sobre si.” — CEO do Google Eric Schmidt

Greg aterrou no Aeroporto Internacional de São Francisco às 8h da tarde, mas pela altura em que finalmente chegou à frente da fila para a alfândega, já passava da meia-noite. Tinha saído da cabina da primeira classe, bronzeado perfeito, a barba por fazer, depois de um mês de praia no Cabo (mergulhando três dias por semana, seduzindo estudantes Francesas no resto do tempo.) Quando tinha saído da cidade, um mês antes, era um destroço andante de ombros descaídos e barrigudo. Agora, era um deus bronzeado, que atraía olhares das hospedeiras na frente do avião.

Depois de quatro horas na fila para a alfândega, tinha novamente passado de deus a mero mortal. O seu aspecto admirável estava gasto, suor escorria pelo rego do seu traseiro, e os seus ombros e pescoço estavam tão tensos que o seu tronco parecia uma raquete de ténis. A bateria do seu iPod já se tinha esgotado há muito, deixando-o sem nada para fazer senão escutar a conversa do casal de meia-idade que se encontrava à sua frente.

“As maravilhas da tecnologia moderna,” disse a mulher, referindo-se a um sinal que estava por perto: Imigração – Powered by Google.

“Não era suposto começarem apenas no próximo mês?” disse o homem, que alternadamente usava e segurava um sombrero de grandes dimensões.

Googlando na fronteira. Jesus. Greg tinha vendido todas as suas acções do Google seis meses antes, esperando aproveitar algum tempo para si próprio – algo que se revelou menos recompensador do que ele esperava. Na maior parte do tempo dos cinco meses que se seguiram, deu consigo a arranjar os PCs dos amigos, ver TV durante o dia, e ganhando quase 5Kg de peso, que culpava ser devido ao tempo que passava em casa em vez de estar no Googleplex, seguindo o seu programa físico de 24h no ginásio.

Continua…

Leia na íntegra…

Fonte: Os Velhotes dos Marretas

de Cory Doctorow
Tradução/adaptação para Português: Carlos Martins


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