Ligando tudo ao todo

Pulp Fictions II

In Arte, Cultura, História em Quadrinhos, Internet, Literatura, Terror, Trilha Sonora, Variedades on 13 novembro, 2009 at 9:30 am
No Brasil a ficção “alternativa” e subgêneros, pode ser encontrada já no século XIX, em Noite na taverna, de Álvares de Azevedo (1878); O Doutor Benignus, de Augusto Emílio Zaluar (1875); o conto “O imortal”, de Machado de Assis (1872; 1882); e entre 1920-1950 — por exemplo, O presidente negro ou O choque das raças, de Monteiro Lobato (1926), analisado por André Carneiro em um estudo pioneiro, Introdução ao estudo da “Science Fiction” (1967); A filha do Inca ou A República 3000 (1930), de Menotti del Picchia; “O homem silencioso” (1928) e Zanzalá e Reino de Deus (1938), de Afonso Schmidt; “O mistério de Highmore Hall”, “Makiné” e “Kronos kai Anagke” (1929-1930), de João Guimarães Rosa, redescobertos por Braulio Tavares na Biblioteca Nacional; A cidade perdida, de Jerônymo Monteiro (1948), além de vários textos contemporâneos dos anos 1980 e 1990.

E como fica essa ficção com cara de Brasil?

Gabriel Garcia Márquez apresenta que o maior desafio para os escritores latino-americanos foi a insuficiência dos recursos convencionais para fazer crível a vida que se leva por aqui. E a resposta para isso se encontra justamente na essência da Ficção Científica, Fantástica ou Ficção Especulativa, ou seja: o conceito de “fantástico” só tem vigência em relação a um conceito particular de “real”. Como realmente ninguém sabe o que é a realidade, pois só há interpretações múltiplas da mesma, também o fantástico é um diferencial, variando historicamente. Na boa ficção especulativa, afirma o Roberto Causo, o fantástico é meio de pluralizar e relativizar a racionalidade dominante. A expressão “ficção especulativa”, que prefere a “ficção científica”, indicaria o que caracteriza nuclearmente o gênero: a especulação sobre os limites da noção de “real”.

E por que não se formou uma pulp fiction ou uma pulp era por aqui?

Bem, se já é difícil editar textos da literatura apoiada por críticos, historiadores literários e pela instituição escolar, mais difícil ainda é publicar literatura especulativa não vista com bons olhos pelo meio literário, que as taxam de “americanizadas”, como se a influência norte americana fosse melhor ou pior que a portuguesa, ou talvez a indígena, ou a francesa, ou quem sabe a africana? As editoras brasileiras preferem traduzir obras de ficção especulativa estrangeiras que, por existirem em grande quantidade e já terem recebido direitos autorais em seus lugares de origem, saem mais baratas que o texto de autor nacional. Além disso, como aponta outro estudioso do gênero, Braulio Tavares, por aqui não houve grandes obras produtoras de imitações, nem se organizou nenhum grupo de autores unidos no projeto de inscrever a ficção especulativa na história literária do país.

No entanto, a mitologia criada pelos Pulps é tão forte que impregnou o cinema, os quadrinhos e a imaginação de milhões de pessoas no mundo todo. De Indiana Jones ao Super-homem, a cultura pop deste século deve muito aos Pulps Fictions.

Particularmente falando, agora, peço licença para dar um depoimento pessoal, pois como todo bom e típico brasileiro, fui criado assistindo as porcarias enlatadas/pré-moldadas de Hollywood, maravilhosos filmes ruins de terror e violência. Eu não nasci em uma fazenda e a primeira vez que vi uma vaca foi pela televisão. Então, Deus salve a América do Sul também! Nunca vi um engenho de cana, não existem pescadores na minha família e é exatamente isso que me torna tão brasileiro quanto qualquer um. Isso e o rock and roll, é claro. Devido ao meio literário brasileiro e suas restrições, me debati durantes anos para aceitar o queria realmente ser: não apenas escritor, mas um escritor de Pulp Fictions.

Pulp Fictions I [ Primeira Parte ]

Nota: O texto acima contém idéias e explanações originais pinçadas dos seguintes autores: Ivan Carlo, Roberto Causo, Braulio Tavares, João Adolfo Hansen, Jackson do Pandeiro e Gabriel Garcia Márquez.

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